WebMotors - Quando você faz muita
propaganda de alguma coisa, corre sempre o risco de criar expectativas
exageradas. Como dizer que um filme apenas mediano é sensacional. A
Chevrolet tem um certo hábito nisso. Aconteceu com o Celta, com o
Prisma, com o Vectra e, agora, com o Agile. Vendido como um carro
revolucionário, quase extraordinário, o hatch pequeno decepciona em
muitos aspectos. Promete e não cumpre; parece, mas não é.
O
primeiro deles é o desenho. É certo que ninguém fica indiferente a ele,
força, também, do fato de ele ser um rostinho novo no mercado. Se isso
fosse suficiente para boas vendas, o Agile estaria em excelente
posição. O problema é a polarização de opiniões.
Não existe meio
termo: há quem o ache lindo e quem o ache horroroso, devido à dianteira
desproporcionalmente grande. Promete um carro maior do que ele
realmente é. Como gosto é algo muito pessoal, deixamos ao leitor o
julgamento sobre o estilo, ainda que, cá entre nós, preferíamos estar certos ao dizer que o novo Aveo seria a base do Agile. Azar nosso. Sorte dos europeus e norte-americanos.
O
estilo não seria uma preocupação muito intensa se o carro tivesse bom
desempenho, acabamento acima da média e um preço atraente diante de
seus concorrentes. Destes itens todos, o Agile só se sai bem no último
quesito: preço. Todo o restante traz algum tipo de “porém”.
Falemos
do desempenho por último e nos concentremos no que mais salta aos
olhos. Vale dar um desconto ao Agile por ser começo de produção, mas
que isso sirva de alerta aos loucos por novidades: as primeiras
unidades de qualquer produto são sempre as mais sujeitas a defeitos. E
o veículo que avaliamos estava cheio deles.
Falhas
Apesar
de o interior ter uma proposta sofisticada, com painéis em dois tons e
um desenho moderno, a qualidade dos materiais é baixa. Os plásticos são
duros, superiores apenas aos usados no primeiro modelo do Celta e bem
distantes dos plásticos revestidos de borracha presentes em veículos da
concorrência.
Não bastasse a questão da textura e da rigidez dos
materiais, eles também têm acabamento deficiente, com rebarbas em
lugares muito visíveis, como as junções das colunas (veja foto ao
lado). As saídas de ar laterais do painel central chegam a ter aletas
afiadas. Machucar os dedos ali não é nada difícil.
Em carros que
trazem muitos plásticos, a questão do barulho, com o tempo, deve
preocupar. No Agile, notam-se diversas aplicações de borracha em pontos
estratégicos, o que tanto pode ser um cuidado de projeto, algo pouco
provável, quanto um remendo de última hora, realizado depois de testes
de durabilidade demonstrarem que essas peças vão fazer barulho com o
tempo. Até o suporte do cinto de segurança do banco dianteiro direito
trazia as tais borrachinhas.
Detalhes de design tentam deixar o
carro mais sofisticado, como já dissemos. Exemplo disso, além do
painel, são os bancos, de estilo bastante jovial, os trincos das portas
dianteiras, em posição insólita (no extremo superior dos puxadores das
portas, o que os deixa mais sujeitos a quebras) e as aplicações de
tecido nas portas. Até a iluminação azul do carro busca esse ar “cool”.
É
pena que a iluminação azul cansa a vista, depois de longo períodos de
direção, e que os mostradores, sob incidência de luz solar, se tornam
praticamente ilegíveis. Quando a luz externa permite, o painel digital
central também mostra uma “pegadinha”: o ar-condicionado, que parece
digital, só tem mostradores digitais. Em outras palavras, não há
indicação da temperatura correta, só de “mais quente” ou “mais frio”.
Se
tudo isso fosse descontado, haveria ainda outras questões, talvez
pontuais, apenas da unidade avaliada, mas que vale a pena citar, até
porque carros de avaliação de imprensa costumam passar por uma inspeção
que modelos comuns não sofrem. O Agile LTZ que dirigimos estava com a
capa inferior de plástico do banco dianteiro direito solta. Não houve
jeito de encaixá-la. O mesmo se deu com a alavanca de abertura do capô,
que se desprendeu do cabo (veja fotos ao lado).
Abrir o
compartimento do motor, aliás, mostra que o cofre tem uma cor muito
diferente da que o carro todo ostenta. Também deixa claro que os
plásticos (para-choque e companhia) parecem mais escuros que o restante
da carroceria. Se o Agile não fosse novo, alguém poderia pensar que ele
já enfrentou funilaria.
Ao volante
Em termos de
espaço interno, o Agile se beneficia de um entre-eixos de 2,54 m, maior
que o do Honda Fit e pouco menor que o do sedã City, o que lhe confere
espaço de carro médio, especialmente pelos bancos com “ponto h” alto,
ou seja, de assento alto em relação ao piso. É um conceito semelhante
ao usado pelos Fiat Mille e Palio e pelo VW Fox. O concorrente alemão,
aliás, é o alvo do Agile desde sempre.
Os bancos altos só acabam
prejudicando o espaço que ocupantes mais altos têm para a cabeça. O
acesso aos assentos traseiros, em razão da curva do teto, também não é
dos mais cômodos, assim como o apoio dos bancos de trás para as coxas.
Em certos momentos, a impressão que se tem é de estar andando em uma
picape média, veículos cujos bancos são exatamente assim: deixam a
sensação de que as pernas estão sem apoio.
O porta-malas do
Agile é o mais amplo do segmento: são 327 l, segundo a GM, maior até
que o do Renault Sandero, modelo médio vendido a preço de compacto, que
tem 320 l de compartimento de carga. Ganchos no assoalho do carro
permitem o uso de uma rede para prender compras e pequenos objetos.
Antes
de colocar o carro em movimento, cabem elogios ao fato de o carro vir
praticamente completo desde a versão LT. Ele tem regulagem de altura
dos cintos, do banco do motorista e do volante. Fica faltando a
regulagem de distância da coluna de direção, mas, diante da Nissan
Livina, que não tem regulagem nem de altura do banco nem dos cintos, o
Agile parece repleto de recursos.
Com essas regulagens, não é
difícil achar uma boa posição de dirigir (a melhor exigiria regulagem
de distância do volante). Mas o motor não ajuda muito a minimizar as
falhas do novo compacto.
O motor 1,4-litro parece pequeno para o
carro, tanto quando se olha sob seu capô quanto quando se exige força
do compacto. O Agile, aliás, deve conquistar fãs entre os reparadores,
que terão espaço de sobra para trabalhar. Fora isso, ele não tem lá
muita disposição e o motor demora a crescer de giro, característica
típica dos propulsores da marca norte-americana.
A posição alta
de dirigir e a pouca força do motor desestimulam uma condução mais
esportiva. Aliás, o Agile talvez tenha só o motor 1,4-litro justamente
porque sua altura em relação ao solo exige mais parcimônia ao pisar no
acelerador. Pena é o motor decidir isso pelo motorista.
Motores
fracos só são econômicos nas mãos de pessoas sem pressa de chegar a
lugar nenhum, ou que têm medo do acelerador. Em outras palavras, o
motorista médio, em busca de um desempenho minimamente aceitável, vai
ter de pisar mais no acelerador do Agile. Isso eleva o consumo.
Conosco, ele fez 5,5 km/l de álcool, o que não é exatamente ruim, mas
também não é um primor de frugalidade.
O que o Agile tem de bom,
mesmo, é seu pacote de itens de série. Mesmo na versão mais simples ele
conta com bancos rebatíveis (inclusive o do passageiro dianteiro, para
carregar cargas compridas), ar-condicionado, travas elétricas e vidros
elétricos apenas na dianteira, controlador de velocidade, direção
hidráulica, computador de bordo, acendimento automático dos faróis,
limpador e desembaçador do vidro traseiro e ajuste de altura do banco
do motorista e da direção. Tudo por R$ 38.107, valor já mais alto que o
anunciado no lançamento do carro, de R$ 37.708.
Na versão LTZ, a
que avaliamos, o carro traz a mais rodas de liga-leve de aro 15”,
espelhos retrovisores elétricos, um excelente rádio com MP3, toca-CD,
Bluetooth e entrada para USB e faróis de neblina. Lanterna de neblina,
airbags dianteiros, vidros elétricos traseiros e ABS com EBD são itens
opcionais.
Se os concorrentes tivessem pensado nisso,
especialmente o VW Fox, cuja remodelação foi recentemente apresentada,
neutralizariam praticamente tudo que o Agile tem de melhor: ser
completo por um preço relativamente baixo e numa versão que já traz
todos estes itens de série, o que valoriza a revenda.
Para quem
procura um veículo novo, espaçoso e completo, o Agile pode ser uma boa
pedida. Desde que o cliente interessado nessas coisas faça vista grossa
para desempenho e acabamento e, em alguns casos, estilo, dependendo do
gosto.
FICHA TÉCNICA – Chevrolet Agile
| MOTOR | Quatro
tempos, quatro cilindros em linha, transversal, duas válvulas por
cilindro, comando simples no cabeçote (SOHC) e refrigeração a água,
1.389 cm³ | | POTÊNCIA | 97 cv (gasolina) e 102 cv (álcool) a 6.000 rpm | | TORQUE | 129 Nm (gasolina)e 132 Nm (álcool) a 3.200 rpm | | CÂMBIO | Manual de cinco velocidades | | TRAÇÃO | Dianteira | | DIREÇÃO | Por pinhão e cremalheira; hidráulica | | RODAS | Dianteiras e traseiras em aro 15” | | PNEUS | Dianteiros e traseiros 185/60 R15 | | COMPRIMENTO | 4 m | | ALTURA | 1,47 m | | LARGURA | 1,68 m | | ENTREEIXOS | 2,54 m | | PORTA-MALAS | 327 l | | PESO (em ordem de marcha) | 1.032 kg (1.075 kg com ar-condicionado) | | TANQUE | 54 l | | SUSPENSÃO |
Dianteira independente, tipo McPherson, molas helicoidais,
amortecedores telescópicos hidráulicos pressurizados a gás e barra
estabilizadora; traseira semi-independente com braços oscilantes, molas
tipo barril com diâmetro variável e amortecedores pressurizados a gás | | FREIOS | Discos ventilados na dianteira e tambor na traseira | | PREÇO | R$ 38.107 (LT) e R$ 40,02 mil (LTZ) |
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